quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

"UMA QUESTÃO DE INICIATIVA", por VICENTÔNIO REGIS DO NASCIMENTO


UMA QUESTÃO DE INICIATIVA
Por Vicentônio Regis do Nascimento*
22/11/2008
Literatura, música, esporte, teatro, dança ou cinema são algumas das muitas disciplinas que exigem de quem as pratica desprendimento, perseverança e determinação.

Quem vê uma competição de basquete ou de natação ou de xadrez, geralmente não imagina o sacrifício diário pelo qual os atletas passam em decorrência da falta de patrocínio, de apoios, de incentivos. Muitos deles apertam o orçamento pessoal para competir.

Se o esporte sofre dessa maneira, alguém consegue imaginar a penúria enfrentada por aqueles que se dedicam à música, ao teatro, à dança ou ao cinema? E à Literatura?
Transitar entre essas disciplinas exige desprendimento, perseverança e determinação. Reunindo esses três elementos, Sylvia Maria Marteleto, Marcos Assis, Luana Aires e Luciano N. Nunes lançam, pela editora Split e organizado pela Sociedade Mutuante, o primeiro volume da coleção “Vermes Poéticos”.

Entidade sem fins lucrativos que, entre outras finalidades, visa promover a cultura brasileira independente, especialmente a Literatura, a Sociedade Mutuante quebra o estereótipo do tradicional mercado editorial brasileiro, produzindo seus próprios livros, organizando saraus literários e musicais, promovendo a circulação da cultura e inserindo novos nomes no campo literário brasileiro.

Entrevistas e fragmentos de trabalho dos participantes da Sociedade Mutuante podem ser lidos na página na internet. Os trabalhos são variados (Filosofia, Música, Literatura etc) e provenientes de todo o Brasil.

Nesse opúsculo – não tenham dúvida de que se trata de um livro pequenino, cabe literalmente na mão –, os quatro autores se manifestam literariamente em verso e prosa.

Sylvia Maria – que é autora de “Contus Humanus”, literariamente criticado neste espaço – abre a obra escrevendo poesias, contos e crônicas. Em seu estilo marcado pelo ritmo truncado, seus textos (tanto em prosa quanto em verso) assombram o leitor pelo convite coercitivo de reflexão imediata e de iniciativas perturbadoras exaladas por perguntas. Assim acontece em “Dos poetas” (“Devo concluir então, que só obtive desprazeres destas caminhadas?” – p.6), em “555” (“O que de mim queríeis, senão o brilho maldoso e arquitetado?” – p. 8), em “Poesia sem nome XVIII” (“enxergariam – no fim – minh’alma?” – p. 13).

Marcos Assis inicia sua colaboração com “Húmus”, discutindo a controvérsia dialógica sobre escatologia (lembrando que, com técnica, consegue mesclar a escatologia tanto em sua acepção fisiológica quanto na teológica). Em “Minha flor, jardim e quintal”, atinge o ápice da leveza e da puerilidade ao finalizar: “por um momento, tudo verdade / tudo que eu mais esperava / era aquele abraço”. (p. 21)

Luana Aires experimenta o conto e o poema. Em “Formigueiro”, sobreposições de força e de sentimentos, numa luta racional e passional. Em “três de março”, provavelmente seu exercício poético mais bem sucedido, assume uma fluência aparentemente simbolista, marcando o ritmo da linguagem pelo uso de anáfora e, em alguns casos, de assonância.

Por fim, Luciano Nunes apresenta sua produção poética assinalada ou por neologismos, ou por tentativas justapositivas, ou por significados ambíguos de denúncia política, num jogo de palavras que algumas vezes flui latente. Nesse contexto, “Fast-fútil” (p.40) se levanta contra a imposição social, dialogando com temas filosóficos.

A primeira tentativa desse grupo de escritores fortalece o espírito dos que têm consciência das dificuldades de se entranhar no campo literário. É o primeiro obstáculo da extensa e hermética escada.

Essa iniciativa demonstra que a boa Literatura não se restringe aos mercados editoriais das grandes concentrações econômicas (São Paulo e Rio de Janeiro) nem dos imensos centros culturais (Porto Alegre e Curitiba). Também comprova que os grandes poetas, contistas e cronistas estão espalhados em todos os lugares, aguardando a oportunidade de darem os primeiros passos. Esses quatro assumiram o compromisso e fizeram da iniciativa o primeiro degrau vencido. Afinal, grandes nomes de nossa Literatura – como Autran Dourado, Murilo Rubião e Dalton Trevisan – também não tomaram iniciativa diante da complexa lógica editorial?
(Crítica publicada no Jornal de Assis - SP e no site Assis Notícias)

Para conferir outras críticas de Vicentônio Regis do Nascimento, acesse:
http://www.assisnoticias.com.br/livros/ e http://www.vicentonio.blogspot.com/

* Vicentônio Regis do Nascimento Silva é mestrando em História Política (UNESP), tradutor e crítico Literário, colabora no "Jornal de Assis" (Assis - SP) e no "Assis Notícias", e é participante do projeto Sociedade Mutuante.

2 comentários:

Sylvia Marteleto disse...

Mais uma vez, eu só tenho a agradecer e elogiar o excelente trabalho do crítico e mutuante Vicentônio Regis! Como sempre, suas críticas possuem uma qualidade inquestionável!

Muito obrigado por esta linda contribuição; sua participação na Sociedade Mutuante é muito importante!!!

Um grande abraço carinhoso,
Sylvia Marteleto.

caim disse...

pô cara! que massa!

bom saber que tem gente que não finge de cego diante de iniciativas independentes e não mainstream.
é um prazer contar com esse apoio!
não duvide que será 'mútuo'!

muito bom mesmo o texto!

só um detalhe:

"split" não é uma editora, nem mesmo um selo
veja na wikipedia:
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lbum_split

tudo bem. nem eu mesmo saberia...
foi o podrera (luciano) apresentou a idéia de 'split' e coube como uma luva na nossa proposta: enfatiza ainda mais o caráter de projeto coletivo e (in)(auto)dependente

forte abraço!

marcos assis